Domingo, 12 de julho de 2026
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RAMYRIA SANTIAGO É DESTAQUE NOS ANAIS DA COLUNA UOL DA REVISTA PIAUI: Como funciona o assédio judicial contra jornalistas no Brasil. A revista fala sobre o trabalho de Ramyria Santiago em Codó

RAMYRIA SANTIAGO É DESTAQUE NOS ANAIS DA COLUNA UOL DA REVISTA PIAUI: Como funciona o assédio judicial contra jornalistas no Brasil.

RAMYRIA SANTIAGO É DESTAQUE NOS ANAIS DA COLUNA UOL DA REVISTA PIAUI: Como funciona o assédio judicial contra jornalistas no Brasil. A revista fala sobre o trabalho de Ramyria Santiago em Codó

RAMYRIA SANTIAGO É DESTAQUE NOS ANAIS DA COLUNA UOL DA REVISTA PIAUI: Como funciona o assédio judicial contra jornalistas no Brasil. A revista fala sobre o trabalho de Ramyria Santiago em Codó

Anais do cala-boca

“TUDO AQUI É PADRÃO”

Como funciona o assédio judicial contra jornalistas no Brasil

ALLAN DE ABREU

Ramyria Santiago comeu o pão

que o diabo amassou – e chegou aonde queria. Órfã de

mãe aos 6 anos, natural de São Luis/MA. criada pelo

avô, cresceu cercada por dificuldades, estudou menos do que gostaria e, aos 15 anos, já estava colocando a

voz na Rádio Riacho Água Fria, o primeiro passo do sonho de ser jornalista e passou por diversas Radios de tvs de Codó.

Logo em seguida, em abril de 2011, aos

23 anos, tomou a decisão que a tornaria

uma figura conhecida em Codó, sua

cidade no interior do Maranhão: abriu o

Blog da Ramyria Santiago, também conhecido como “Blog rosa” por causa da

cor predominante do layout da página

na internet. Em um dia comum, trabalha pela manhã na afiliada da Rede tv!,

e à tarde opera o seu blog.

“Nele, eu abordo notícias que não

consigo dizer na tevê, principalmente as

policiais. Eu adoro correr atrás de uma

ocorrência policial e gosto muito de ouvir o povo, a comunidade, amo fazer reportagem”, diz a jornalista.

“O blog é o meu lugar de fala, de uma

mulher preta que tem orgulho de ser

quem é, apesar de todo o machismo e o

preconceito, que ainda são fortes por aqui.”

Ramyria Santiago sofreu ameaças e processos, em um estado tradicionalmente

hostil ao jornalismo – na última década,

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três jornalistas blogueiros foram assassinados no Maranhão. Em razão de um texto

sobre um jovem acusado de estupro, teve

de se esconder no prédio da tevê para fugir

da agressão de familiares do rapaz. Já fez

matéria sobre um homicida, e recebeu

ameaças por WhatsApp, por meio de uma

ligação feita diretamente do presídio.

Codó, uma cidade pobre a pouco mais

de 300 km de São Luís, tem 114 mil moradores. Os blogs dos dois jornalistas, juntos, Ramyria e marcos somam 400 mil acessos mensais,

segundo a Similarweb, plataforma que

mede a audiência na internet. Para o tamanho da cidade, é uma audiência respeitável. Talvez por isso o advogado Guilherme

Henrique Branco de Oliveira, pré-candidato a prefeito de Codó neste ano, tenha

tido uma reação tão agressiva quando os

dois blogs noticiaram sua prisão pela Polícia Federal, sob a acusação de integrar um

esquema de fraude de aposentadorias do

inss. Em reação, Oliveira optou pelo chamado assédio judicial.

A Associação Brasileira de Jornalismo

Investigativo (Abraji) tem uma definição para o assédio judicial contra

jornalistas: “Uso de medidas judiciais de

efeitos intimidatórios contra o jornalismo,

em reação abusiva a conteúdo de interesse público.” Na prática, o assédio judicial se

manifesta de diversas formas. Pode se dar

pela abertura de uma enorme quantidade

de processos, por processos abertos em

cidades diferentes, por pedidos de indenização de valor altíssimo ou pela desigualdade de forças – a chamada “paridade de

armas” – entre as partes.

Quando Ramyria Santiago e Marco

da Silva, os blogueiros de Codó,

noticiaram a prisão do advogado

Guilherme Oliveira por suspeita de

fraudar aposentadorias do inss, a roda

do assédio judicial começou a girar.

Eles foram os primeiros a noticiar o fato,

inclusive divulgando fotos da ficha prisional do advogado, nas quais ele aparece de frente para a câmera vestindo o

uniforme laranja de presidiário.

Silva responde hoje a 35 processos

movidos por Oliveira. Santiago,30. O argumento central do advogado é que sua

privacidade foi violada com a divulgação

de fotos de presidiário. O advogado também alega que os blogs fazem “publicação de inverdades”. Fosse apenas isso, um

processo bastaria para se defender. Talvez dois, um contra cada blogueiro. Não

era preciso ajuizar mais de 53 ações.

Oliveira ficou apenas um dia detido.

Conseguiu um habeas corpus, mas saiu

indiciado pela Polícia Federal por estelionato, formação de quadrilha e inserção

de dados falsos no sistema de informação

do inss. Desde então, sua prática advocatícia, digamos assim, tem sido investigada pela Polícia Civil e pelo Ministério

Público. Virou réu numa ação penal

acusado de extorsão, apropriação indébita e falsidade ideológica. Teve parte de

seus bens bloqueados e sua carteira da

Ordem dos Advogados do Brasil foi suspensa (no fim de 2023, ele recuperou o

direito de advogar). A população de Codó

sabe de tudo isso porque os blogs de Silva

e Santiago noticiaram caso por caso.

A razão de tantas ações contra os blogueiros apareceu na manhã do dia 12 de

Santiago, no entanto,

nem conseguiu se defender nas primeiras

audiências. “O juiz não me deixava falar”,

diz. Sem advogado, ela foi condenada

em duas ações civis a pagar um total de

10 mil reais de indenização a Oliveira.

Para garantir o pagamento, teve suas contas bancárias bloqueadas e o benefício

social que recebia, que pertence a sua irmã

deficiente intelectual foi penhorado. “Fiquei sem dinheiro nenhum e tive que

fechar uma pequena loja de calçados no

Centro de Codó.” Sua situação só mudou

quando pediu ajuda ao Tornavoz, que

atua na defesa jurídica de jornalistas. Desde então, Santiago não voltou a ser condenada. Ela se emociona quando relembra

da primeira audiência com os advogados da

entidade. “Só ali eu me senti respeitada.”

Entre as centenas de processos mencionados nesta reportagem, apenas Ramyria

Santiago foi condenada em dois casos. Em

todos os outros que já foram julgados, os

assediados foram absolvidos. Ainda assim,

num sinal de que o assédio judicial dispensa a condenação para surtir efeito, já houve impacto profundo.

A piauí teve acesso exclusivo a um

levantamento realizado pela Abraji na

Justiça brasileira. Mostra que, entre os

quase 6 mil processos em curso que

tratam da liberdade de expressão, há

654 ações contra jornalistas que podem

ser caracterizadas como assédio judicial.

LINK; https://piaui.folha.uol.com.br/materia/como-funciona-o-assedio-judicial-contra-jornalistas-no-brasil/

(O levantamento não inclui processos que

correm em segredo de Justiça.) A pesquisa

encontrou ações em que os pedidos de indenização chegam a 30 milhões de reais.

“O assédio judicial contra o jornalismo não se limita a casos isolados. É algo

sistemático, que nem o uso de técnicas

rigorosas na apuração de um fato pelo repórter consegue evitar”, diz Letícia Sarmento Kleim, assistente jurídica da Abraji.

A situação se agravou de 2019 para cá,

depois da ascensão da extrema direita ao

governo com Jair Bolsonaro. Dos 654 processos em tramitação, 434 têm menos de

cinco anos. “É paradoxal que a extrema

direita invoque com frequência a liberdade de expressão absoluta para defender

discurso de ódio, mas se diga ofendida

com críticas oriundas do jornalismo profissional, muitas delas baseadas em fatos”,

diz o desembargador André Gustavo Corrêa de Andrade, do Tribunal de Justiça do

Estado do Rio de Janeiro, especialista no

tema liberdade de expressão.

O número 654 não parece alto – dá

uma média de 25 processos por estado –,

mas há indicadores de que o Brasil está

entre os países que mais hostilizam seus

jornalistas no plano judicial. O Media

Defence, uma ong baseada em Londres

que custeia a defesa jurídica de repórteres

em todo o mundo, já bancou as despesas

de 1 450 profissionais desde sua fundação, em 2008. O maior número – 249 – é

de brasileiros. Em segundo lugar, aparecem os jornalistas do Azerbaijão, com

195 casos. Em terceiro, a Rússia, com 103.

O caso do Brasil é um dos mais agudos

do mundo pela combinação de dois fatores. Um deles é cultural. A Constituição

de 1988 consagrou a liberdade de expressão, mas o conceito nunca foi apreendido

pela sociedade brasileira. “A liberdade de

expressão foi imposta aos brasileiros pela

Constituição sem que houvesse um substrato social que apoiasse o conceito”, diz

a advogada Taís Gasparian, fundadora do

Tornavoz, entidade baseada em São Paulo que atua na defesa jurídica de pessoas

processadas pelo exercício da liberdade

de pensamento e expressão. “Um sinal de

que somos imaturos para lidar com a livre

circulação das ideias é que no Brasil da

herança coronelista já se nasce com honra, e todos sabemos que honra se constrói,

não é hereditária”, completa Gasparian.*

O outro fator é o funcionamento da

Justiça. Em 1995, com a criação dos Juizados Especiais Cíveis (jecs), o acesso ao

Judiciário, sobretudo para garantir os direitos do consumidor, tornou-se mais amplo e democrático – o que representou um

avanço. Nos jecs não é preciso contratar

advogado, nem pagar taxa, nem se exige

que o autor ingresse com ação na comarca

do réu, como manda a lei nos demais casos. Mas não demorou muito para que as

facilidades dos jecs fossem distorcidas,

abrindo caminho para o assédio judicial.

No caso dos jornalistas, segundo o levantamento da Abraji, dois terços dos 654 casos de assédio tramitam nos jecs. “No

assédio judicial, o objetivo da pessoa, da

empresa ou da entidade não é vencer as

ações, mas causar transtornos à empresa

de mídia e ao jornalista, que são obrigados

a se defender em cada um dos processos,

gerando perda de tempo e de dinheiro”,

diz o desembargador Corrêa de Andrade,

do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Um dos primeiros usos abusivos dos

jecs aconteceu em São Paulo. Entre

1997 e 1998, alguns episódios do progra-

* A advogada Taís Gasparian defende a piauí em seis

processos judiciais.

ma humorístico Casseta & Planeta, então exibido pela tv Globo, satirizaram a

truculência dos policiais militares que

haviam sido flagrados extorquindo dinheiro e executando moradores da favela Naval, na periferia de Diadema,

Região Metropolitana de São Paulo. Na

ocasião, 270 policiais do 24º Batalhão da

pm ingressaram com 132 processos contra a emissora por danos morais no jec.

A Globo venceu todas as ações, mas a

porteira para o assédio estava aberta.

A Igreja Universal do Reino de Deus

percebeu logo.

Em janeiro de 1997, a revista IstoÉ publicou uma reportagem sob o título

O calvário do bispo. O repórter Gilberto Nascimento narrava as dificuldades

do bispo Edir Macedo com a queda do

faturamento anual da Igreja Universal

do Reino de Deus, que ele fundara vinte anos antes. Incomodado com a reportagem, um grupo de pastores apresentou

cinco queixas-crime contra o repórter,

além de uma ação por danos morais.

Gilberto Nascimento ganhou todas.

Em 2006, a tática voltou a ser aplicada.

O programa Linha Direta, também exibido pela Globo, tratou do assassinato do

jovem Lucas Terra por dois pastores da

Universal, em Salvador, em 2001. Fiéis e

pastores protocolaram 96 ações em jecs,

sendo 3 em lugares distantes da Bahia,

como Juína, em Mato Grosso, e Buritis,

em Rondônia. Logo surgiu a suspeita de

que se tratasse de uma ação coordenada

pela Universal, considerando que os textos

das representações judiciais eram quase

idênticos, embora os autores estivessem

em diferentes regiões do país. A Globo

ganhou todos os 96 processos. (No ano

passado, os dois pastores foram condenados a 21 anos de prisão pelo crime de

2021. Ainda cabe recurso.)

Chegou então a vez do jornal A Tarde,

de Salvador. Em 2007, o diário publicou

uma reportagem mostrando que um fiel

da Universal entrara em uma igreja católica e destruíra uma imagem de São

Benedito datada do século xviii. Em entrevista ao repórter Valmar Hupsel Filho,

de A Tarde, o acusado disse que quebrara

a imagem durante um surto psicótico depois de ouvir a pregação de um pastor da

Universal criticando o culto de imagens

entre os católicos. A Universal entrou na

Justiça pedindo 2 milhões de reais de indenização, enquanto pastores da igreja

abriram sessenta processos contra o jornal. “Tivemos de contratar advogados

em várias comarcas pelo Brasil”, lembra

a advogada Ana Paula Moraes. A Tarde,

o mais antigo jornal da Bahia em circulação, ganhou todos os processos.

No mesmo ano de 2007, a Universal

aplicou a tática do assédio judicial na sua

extensão máxima. A repórter Elvira Lobato publicou uma reportagem na Folha de

S.Paulo mostrando o crescimento fabuloso do patrimônio da Universal, que estava

completando três décadas de existência

naquele ano. Eram 23 emissoras de tevê e

40 emissoras de rádio, além de 2 jornais

diários e 1 empresa de táxi-aéreo em nome

de membros da igreja. Lobato conhecia

bem o assunto. Anos antes, ela publicara

no mesmo jornal uma matéria sobre as

contas da Universal em paraísos fiscais.

Nas duas reportagens, Lobato procurou a

Universal, que não quis se manifestar.

Um mês depois da veiculação da matéria sobre o patrimônio da Universal, surgiam notícias de que havia uma estranha

proliferação de ações judiciais contra a

repórter e a Folha. Havia ação em Coari,

no interior do Amazonas. Ação em Aripuanã, em Mato Grosso. Ação em Lago

da Pedra, no interior do Maranhão. Eram

movidas por pastores e fiéis, todos se dizendo ofendidos com o conteúdo da reportagem. No total, foram 103 processos,

todos abertos em jecs e todos com textos

muito semelhantes entre si. De novo, a

suspeita de um movimento orquestrado.

Como na época não havia audiência

por videoconferência, Lobato, que até então só fora processada uma única vez por

seu trabalho jornalístico, teve de se deslocar de Norte a Sul do país para se defender.

A faina durou dois anos, período em que

teve dificuldade de trabalhar em razão do

excesso de audiências. “Foi um terremoto

na minha vida. Meu trabalho estava correto, eu estava devidamente documentada

em tudo o que eu afirmava na reportagem. Até então eu achava que a verdade

era um escudo protetor do repórter, mas

eu estava enganada. Não era a verdade

que estava em jogo ali”, diz. Lobato e a

Folha venceram todas as 103 ações.

Já que a vitória não é o objetivo, a Universal nunca deixou de recorrer ao assédio. Em 2020, veio a público o caso do escritor João Paulo Cuenca, conhecido

como J. P. Cuenca. Indignado com a distribuição de verbas públicas do governo

Bolsonaro para emissoras de rádio e tevê

das igrejas evangélicas, ele escreveu no

então Twitter: “O brasileiro só será livre

quando o último Bolsonaro for enforcado

nas tripas do último pastor da Igreja Universal.” Em poucos minutos, a postagem

foi inundada por ataques, e nada adiantou explicar que se tratava de uma paráfrase de um conhecido excerto do abade

francês Jean Meslier (1664-1729): “O homem só será livre quando o último rei for

enforcado nas tripas do último padre.”

Cuenca foi demitido da sucursal brasileira da Deutsche Welle, rede de mídia

alemã onde escrevia uma coluna quinzenal, acusado de propagar o ódio. No mês

seguinte, começaram as ações por danos

morais nos jecs país afora – em Cruzeiro

do Sul, no Acre, em Santa Quitéria, no

Ceará, em Mafra, em Santa Catarina.

Em cinco meses, respondia a 145 processos. “Eu entrei em pânico, não sabia o

que fazer. Eu teria que contratar advogado e tinha acabado de perder meu emprego de colunista”, relembra ele, que

relatou seu tumulto em depoimento publicado pela piauí (Nada é mais antigo

que o passado recente, piauí_172, janeiro

de 2021). Sua situação só foi amenizada

quando passou a ser defendido por advogados contratados pela Media Defence.

Até o fim de março, Cuenca não fora

condenado em nenhum processo.

Procurada pela piauí, a Universal nega

a promoção de assédio judicial, tanto no

caso de Elvira Lobato quanto no caso de

Cuenca. Em nota, disse ter movido uma

única ação contra Lobato, “uma vez que

foi ofendida diretamente (bem como foram milhões de seus fiéis em todo o país)”

e “não houve qualquer advogado da Universal atuando nesses supostos processos

relativos à jornalista”. Sobre Cuenca, disse

que “a Constituição Federal do Brasil assegura a todos […] o direito de acesso à Justiça”. E completou: “Como vítima maior do

preconceito religioso no Brasil, a Universal preza e defende todas as liberdades asseguradas pela Constituição Federal.”

O pastor Ricardo Wagner da Silva,

que assinou ações judiciais tanto contra

Lobato quanto Cuenca, tem outra história para contar. Ele deixou recentemente

a Universal e hoje mora em Barra do Garças, no interior de Mato Grosso. “Quando

eu estava na instituição, a gente era levado pela direção a fazer isso aí”, diz ele,

explicando porque moveu a ação contra

os dois jornalistas. “Não tinha como dizer

que não, eu fazia parte da instituição.

[A igreja] escolhia alguns [pastores], não

eram todos. Você não tem direito de escolher, dizer que não [quer assinar]”, disse.

O vendaval de processos para tumultuar a vida dos jornalistas ou dos

veículos de imprensa não é a única

tática em curso. A litigância contumaz,

como se define a prática de sair processando todo mundo, é também uma forma de

intimidação. Quando se publica uma reportagem contra um litigante contumaz,

já se sabe que virá um processo – e essa

ameaça velada e constante tende a desestimular os profissionais e seus veículos.

A Associação Nacional Movimento

Pró-Armas, que reúne colecionadores de

armas, atiradores desportivos e caçadores, os chamados cacs, é uma litigante

contumaz. Entre 2021 e o ano passado,

abriu dezessete ações judiciais –, nenhuma com sucesso até agora. Quando um

veículo publica uma crítica aos cacs ou

à Proarmas, lá está a associação recorrendo à Justiça. Nos seus pedidos de indenização estão aqueles valores exorbitantes,

que batem em 30 milhões de reais. Mas

o assédio judicial promovido pela Proarmas tem um destaque. A entidade conjuga duas táticas: a litigância contumaz

com a proliferação de processos.

Em abril de 2020, quando o economista Ricardo Sennes criticou na tv Cultura

a decisão de Bolsonaro de afrouxar o controle sobre a circulação de armas no país,

a Proarmas entendeu que havia sido chamada de “traficante de armas”. Era uma

interpretação hiperbólica, mas pouco importa. Marcos Pollon, presidente da Proarmas e atualmente deputado federal pelo

pl de Mato Grosso do Sul, fez um vídeo

no YouTube ensinando os cacs a processar Sennes. Era um tutorial do assédio. Mandava buscar no Google nome

completo, cpf e endereço profissional do

economista, orientava a preencher um

requerimento, mandava o link do comentário de Sennes na tevê e dizia qual acusação deveria ser feita. Com detalhes: “Pede

indenização de até vinte salários mínimos.

Você vai no Juizado Especial e processa

esse sujeito. Muito melhor do que ofender

em rede social”, disse Pollon.

Com a orientação, 93 cacs abriram

processo, quase sempre em pequenas cidades do interior. Com o advento das audiências virtuais, pelo menos o assediado

evita ficar em tour permanente pelo país.

Sennes estima ter participado de umas

quarenta audiências virtuais. “Havia casos em que o autor da ação nem sabia em

qual veículo de mídia eu tinha feito o

comentário. Dezenas de cacs anexaram

nos processos fotos da tela do vídeo do

meu comentário tiradas exatamente no

mesmo horário”, diz. Até março, Sennes

fora absolvido em 91 ações. Duas aguardavam sentença. Procurado pelo piauí,

Pollon não se manifestou.

Apesar das evidências de uso abusivo

dos processos, a Justiça até hoje não tomou providências concretas para barrar

o assédio judicial. Afinal, a lei proíbe a

litigância de má-fé. “O Judiciário brasileiro tem uma porta aberta para esse

tipo de perseguição que ninguém se

preocupa em fechar. É um revólver engatilhado na cabeça de todo mundo”,

diz o jornalista e escritor J. P. Cuenca.

O procurador Julio José Araujo Junior, do Ministério Público Federal do

Rio de Janeiro, examinou 110 pedidos de

indenização por parte dos pastores da

Igreja Universal no caso de Cuenca. Em

95 deles, encontrou apenas dois padrões

de texto. “Os padrões adotados tornam

difícil crer em iniciativas isoladas ou não

estimuladas”, escreveu Araujo em seu

relatório. Por isso, ele está estudando a

possibilidade de entrar com uma ação

civil pública contra a Universal. O procurador também criou um fórum com

entidades ligadas à liberdade de expressão para debater estratégias contra o uso

do Judiciário para fins persecutórios.

Hoje, o Judiciário não tem nenhum

mecanismo para identificar o assédio

judicial. “Confesso que eu teria dificuldade em saber se um réu por ação de

dano moral que tramita na minha vara

responde a ações idênticas em outras varas pelo país”, diz Tom Alexandre Brandão, titular da 2ª Vara Cível da Comarca

de São Paulo. Em 2022, com a repercussão do caso de J. P. Cuenca, o Conselho

Nacional de Justiça recomendou aos

tribunais a “adoção de cautelas visando

coibir a judicialização predatória que

possa acarretar o cerceamento de defesa

e a limitação da liberdade de expressão”.

Para os especialistas no tema, a medida

é saudável, mas é tímida demais diante do

tamanho do problema. A advogada Taís

Gasparian defende a adoção de uma abordagem tripla. É preciso, diz ela, impedir o

ajuizamento de processos múltiplos onde

há abuso, extinguindo tais processos na

largada. Em segundo lugar, deve-se punir

o abuso com multas de alto valor para desestimular esse tipo de litigância de má-fé

(atualmente as multas raramente ultrapassam 4 mil reais). Por fim, ela recomenda

que as ações sejam reunidas no foro do

domicílio do réu, o que ajudaria a minimizar as consequências do assédio.

Embora na Europa o assédio judicial

contra jornalistas não tenha a mesma dimensão que no Brasil, a União Europeia

tomou providências para reduzir os riscos

em março deste ano. Definiu que, quando claramente atentam contra a liberdade

de expressão, as ações contra jornalistas e

ativistas de direitos humanos devem pagar

caução para cobrir as custas processuais e

devem ser indeferidas liminarmente quando forem “manifestamente infundadas”.

Nos Estados Unidos, intimidar um repórter é ainda mais difícil. Desde 1964,

vigora o entendimento jurídico de que o

demandante de uma ação por danos morais precisa provar não apenas que os fatos

noticiados são inexatos, mas também que

o jornalista tinha a intenção de ofender.

No Congresso Nacional, tramita um

projeto de lei que prevê reunir em um único julgamento todas as ações por danos

morais que se relacionem à liberdade de

expressão contra uma mesma pessoa. Em

2021, a Abraji protocolou uma ação no Supremo Tribunal Federal (stf) com uma

proposta semelhante. Pedia que as ações

que configurem assédio e estejam tramitando nos jecs contra jornalistas sejam

todas julgadas de uma só vez e no foro do

jornalista. Em outubro passado, a então

ministra Rosa Weber rejeitou o pedido.

Os demais ministros ainda não votaram.

A paralisia do Judiciário diante do problema pode ser explicada, em parte, pelo

uso que os próprios integrantes do Judiciário fazem do assédio. De todos os casos

em curso na Justiça hoje, 16% foram ajuizados por profissionais do próprio Judiciário, segundo a Abraji. “Em abstrato,

todos os juízes concordam com a importância da liberdade de expressão”, diz

Rafael Mafei, professor-associado da Faculdade de Direito da Universidade de

São Paulo (usp). “Mas quando ocorrem

casos concretos, reclamam da sua honra

ferida.” Um caso, ocorrido em Curitiba,

é uma ilustração perfeita do ponto mencionado pelo professor Mafei.

Em fevereiro de 2016, cinco repórteres

do jornal Gazeta do Povo publicaram

uma matéria sobre ganhos estratosféricos de juízes e promotores do estado do

Paraná. Em um único mês, dizia a matéria, algumas autoridades haviam recebido

até 180 mil reais, um valor muito acima

do teto constitucional de 30,4 mil reais

vigente na época. A alta remuneração

decorria, como sempre acontece nesses

casos, do acúmulo de penduricalhos – é

auxílio-moradia, auxílio disso, auxílio

daquilo – que existem para driblar o teto

e adubar os ganhos. “Não havia ilegalidade, mas a imoralidade era evidente”, diz

Rogério Galindo, um dos autores da reportagem, que reuniu dados públicos,

disponíveis nos sites do Tribunal de Justiça e do Ministério Público.

A publicação incomodou os juízes e

promotores. De uma hora para outra, os

repórteres viraram réus em 42 ações judiciais por danos morais ajuizadas em várias cidades do Paraná. Não havia nada

de espontâneo. Um blog de Curitiba

publicou um áudio em que o então presidente da Associação dos Magistrados

do Paraná, Frederico Mendes Júnior,

conclamava os colegas a ingressarem

com ações individuais. “Já estamos providenciando um modelo de ação individual, feito a muitas mãos, por vários

colegas, e com viabilidade de êxito.”

A Gazeta do Povo alugou uma van

para levar os jornalistas às audiências –

todas presenciais – pelo interior do Estado. Foram três meses de deslocamentos

constantes. Certa vez, percorreram 600 km,

entre Curitiba e Medianeira, no extremo

Oeste do estado, só para participar de

uma audiência de conciliação. “Eu tinha

filho pequeno na época”, lembra Galindo. “O Chico ia estudar na Inglaterra.

A mulher do Euclides estava grávida”.

Chico Marés e Euclides Garcia eram outros dois autores. Evandro Balmant e Guilherme Storck completavam o quinteto.

Como os processos continuassem chegando, o departamento jurídico do jornal

resolveu recorrer ao stf, alegando abuso

do direito de ação por parte dos juízes e

promotores. Pedia uma liminar suspendendo a tramitação dos processos e solicitava que fossem todos reunidos numa

única ação, a ser julgada pelo próprio stf.

No dia 20 de maio de 2016, três meses depois do início do assédio judicial, a ministra Rosa Weber negou o pedido. “Cumpre

anotar que a Constituição da República

confere especial proteção, na condição de

direitos fundamentais da personalidade, à

honra e à imagem de toda e qualquer pessoa, assegurando o direito à indenização

pelo dano material ou moral decorrente

de sua violação”, argumentou a ministra.

Os magistrados estavam confiantes

do sucesso da empreitada. Tanto que,

semanas mais tarde, numa audiência

em Paranaguá, o juiz Walter Ligeiri Júnior sentiu-se à vontade para ameaçar

os jornalistas. “Depois dessa decisão do

Supremo, vocês vão viajar muito o Paraná. Vão conhecer todas as comarcas,

todos os juízes”, ironizou, dirigindo-se

aos jornalistas presentes. Não escondeu

que havia uma ação orquestrada. “Tudo

aqui é padrão”, disse “A inicial é padrão,

a contestação é padrão.” E anunciou

que a situação dos jornalistas só ia piorar, diante da mobilização dos juízes.

“Montamos um grupo, e estamos chamando outros. E estamos falando com

mais duzentos para as próximas ações.

São setecentos juízes preparando ação.”

Ligeiri Júnior, porém, desconhecia

um detalhe: um dos jornalistas estava gravando tudo. A defesa jurídica da Gazeta

voltou ao stf, desta vez anexando o áudio

das ameaças do juiz. A ministra Rosa Weber concedeu liminar suspendendo todas

as ações. “O abuso do direito de ação com

a finalidade de se obter vantagem colateral – chilling effect – dos órgãos de imprensa não pode ser chancelado pelo

Judiciário”, escreveu Weber, recorrendo à

expressão em inglês para designar o “efeito inibidor” do assédio judicial. Somente

em setembro do ano passado o plenário

do STF julgou o mérito da ação, decidindo a favor dos jornalistas por 9 votos

a 2. Nem Mendes Júnior, hoje presidente

da Associação dos Magistrados Brasileiros, nem Ligeiri Júnior, que permanece

trabalhando em Paranaguá, responderam

aos pedidos de entrevista da piauí.

Em ações movidas por juízes, os casos

em que falta paridade de armas não são

incomuns. O mais notório envolve o jornalista Rubens Valente, que escreveu

Operação banqueiro, um livro-reportagem publicado pela Geração Editorial, no

qual lança dúvidas sobre a lisura do ministro Gilmar Mendes, do stf, em ações

judiciais relacionadas a uma investigação

de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo, entre outros, o banqueiro Daniel Dantas. O ministro processou o

jornalista, perdeu na primeira instância,

mas ganhou em todas as outras até chegar

ao stf, onde, contando com quatro votos

favoráveis de seus colegas da primeira turma, teve dupla vitória. O jornalista foi

condenado a pagar uma indenização de

310 mil reais e publicar na íntegra a sentença condenatória numa eventual reedição do livro – o que, por aumentar em

30% o tamanho da obra, inviabilizou

novas edições. Como não cabe mais recurso no Judiciário brasileiro, a Media

Defence denunciou o caso à Comissão

Interamericana de Direitos Humanos.

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